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  ENTREVISTA GUSTAVO CERBASSI - Para comprar um imóvel é necessário ter educação financeira? Seta
 
Ter um espaço é uma necessidade do ser humano, seja para morar ou trabalhar, podendo ser um imóvel próprio, alugado ou emprestado.

Você como educador financeiro acredita que antes de pensar em comprar um imóvel é necessário ter educação financeira?

Sem dúvida. Está mais do que comprovado que os brasileiros têm dificuldades para planejar e decidir quando grandes quantias de dinheiro estão envolvidas. A sociedade pressiona os mais jovens para que o imóvel próprio seja adquirido o quanto antes na vida adulta, e as estatísticas mostram que a decisão de compra financiada é tomada precocemente para a maioria das pessoas. Em geral, a consequência da compra da casa própria é dificuldade para reservar verbas para o lazer e a qualidade de vida, uso frequente do cheque especial e medo de mudanças radicais na carreira – fruto do pesado e inflexível compromisso financeiro e do temor da perda do emprego, que impossibilitaria a manutenção do inadequado padrão de vida assumido pela maioria da população. Hoje, a idade média daqueles que entram em um financiamento imobiliário no Brasil é de 31 anos. Minha opinião é que a idade ideal seria mais próximo dos 38 anos, com saldo maior no FGTS para dar de entrada, maior renda para poder assumir financiamentos mais curtos e menor propensão a mudar de emprego, o que torna mais adequada a fixação geográfica em uma casa própria.

Você acredita ser necessidade básica ter um imóvel próprio?

Não vejo nenhum motivo para ser considerado necessidade básica. Um imóvel próprio exige cuidados maiores do que um imóvel alugado, diminui a flexibilidade de nossas escolhas e sai mais caro para adquirir e manter do que se continuarmos a alugar um imóvel sob medida. Considero o imóvel próprio um artigo tão supérfluo quanto um automóvel de luxo. Porém, é necessário para aqueles que não conseguem organizar seu planejamento para o futuro. Nesse caso, o imóvel acaba se tornando a proteção jurídica da moradia ou a poupança forçada que será desfeita em caso de necessidade extrema na aposentadoria. Eu tenho minha casa própria, mas considero-a um luxo. Seria o primeiro item a descartar se tivesse que enxugar minhas finanças.

Vejo que grande parte da população idealiza ter um imóvel próprio mesmo não sendo o ideal a compra, acha que isso é por falta de educação financeira?

É uma combinação de falta de educação financeira com vício cultural. A maioria das pessoas não compra a casa própria por que quer, mas sim porque todos compram e os mais velhos os pressionam para fazer isso. A casa própria é, para nossa ingênua população, sinônimo de conquista, de maturidade e de status. Na prática, é também o principal motivo de inadimplência, má qualidade de consumo e de um sofrimento que consume muitos anos da vida dos adultos brasileiros. Se ter casa própria fosse sinônimo de riqueza, todos os suíços teriam a sua. Lá, menos de 4% da população vive em imóvel próprio.

Muitas pessoas perdem seus imóveis por inadimplência, e muitos ganham dinheiro comprando esses imóveis abaixo do valor do mercado. O que pensa a respeito disso?

A inadimplência é fruto de más escolhas. Se uma pessoa passa por dificuldades e vive em um imóvel alugado, muda-se para outro imóvel menor. Já quem está pagando a casa própria e percebe que deu um passo maior que a perna normalmente consome suas reservas até o limite, para então perder a saúde e o relacionamento familiar. Só então é que se desfaz da má escolha, geralmente com sentimento de urgência ou com o imóvel tomado pelos credores. Aí surge a figura do comprador, que muitos julgam ser um oportunista. Nesse ponto eu discordo. Se não houvesse comprador a oferecer um preço abaixo do que vale no mercado, o problema não seria resolvido. O mesmo acontece quando um investidor compra ações em baixa. Vende quem não consegue manter sua má escolha, compra quem se preparou para lucrar em cima do erro do outro. Em economias com menos desigualdades e maior nível de educação financeira, esse processo também acontece, só que com diferenças de preço bem menores.

Acredita estarmos prestes a vivenciar uma bolha imobiliária?

Não. Discordo completamente. Mesmo que haja uma queda de preços (nisso eu acredito), é um erro grave chamar de bolha. O conceito de bolha econômica surgiu para ilustrar o fenômeno de queda brusca que sucede um aumento extremamente exagerado de preços, como aconteceu nos EUA após os anos 1990 ou na crise de 1929. Para haver bolha, é preciso haver irracionalidade de preços. A irracionalidade de preços se constata quando os bens comprados deixam de ser desfrutados, com imóveis passando de mão em mão entre investidores e muitos ainda permanecendo desocupados. No Brasil, os preços dos imóveis subiram muito mais do que a média mundial, mas em certo grau acompanharam o aumento da renda e do emprego. Além disso, são poucos os imóveis residenciais desocupados. Os preços subiram para atender à demanda. Já nos imóveis comerciais o nível de ociosidade é maior, indicando maior especulação. Acredito que a atual acomodação de preços que já está acontecendo deve continuar, e os preços devem cair um pouco mais nos imóveis comerciais. Mas, chamar isso de estouro de bolha é alarmismo.

Qual mensagem gostaria de deixar e que acredita que possa contribuir para nossos leitores?

Eduquem-se. Sejam curiosos e pesquisem bem não apenas preços, mas também ideias e reflexões sobre decisões importantes a tomar. Isso vale para a moradia, para a escola do filho e para a compra de um carro, entre outros. Ouçam menos quem vende, e mais quem já comprou. No caso dos imóveis, nem é preciso fazer muitas contas. Para que deixar de pagar cerca de 0,5% ao mês pelo aluguel de um imóvel e passar a pagar 0,8% ao mês pelo aluguel do dinheiro do banco? A compra da casa própria só faz sentido depois que as pessoas chegam a uma situação na vida em que querem estabilidade, fincar raízes. Enriquecer é uma questão de escolha, mas para saber fazer essa escolha é preciso antes se educar.

Obrigado Gustavo
Fonte: http://escolaimovel.com.br/2014/05/entrevista-exclusiva-com-gustavo-cerbassi-autor-de-casais-intelig
 
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